Cabe aqui, antes de qualquer coisa, justificar o que me move a escrever acerca do caso, sobretudo por estar escrevendo num espaço que, a primeira vista, parece não ser direcionado a esse tipo de manifestação, por (como já me disseram hoje enquanto construía meu texto) ser um espaço para a veiculação das questões de àsè, e não para militância feminista. Então é como pessoa de àsè que primeiro falo. Posteriormente, nós da comunidade religiosa pensamos em redigir algo acerca do significado do àsè em nossas vidas. Por ora, limito-me a dizer que àsè é força para mobilizar o mundo de forma positiva, para gerar boas circunstâncias, para construir um espaço em que todas as formas de vida possam se edificar mutuamente e crescer de forma harmônica. E no que tange construir um espaço melhor para tod@s, àsè também é militância, em prol de quem quer que precise ter sua voz liberta e seu espaço assegurado. E agir de forma a conquistar um espaço melhor para todas as pessoas também é uma forma de enviar àsè para o mundo. Então, é com todo àsè feminista que me manifesto daqui por diante.
Muitas são as polêmicas em torno do caso de abuso sexual ocorrido num certo "reality" show bastante apreciado por boa parte do público brasileiro, reality show que não nomeio aqui por não fazer parte da lista de coisas que penso dignas de nomeação. Mas fato é que, se por um lado o programa em si não me parece digno de atenção, por outro o referido caso parece, não só digno de atenção, mas de ação, de posicionamento, pessoal e (principalmente) público.
Muitas são as polêmicas em torno do caso de abuso sexual ocorrido num certo "reality" show bastante apreciado por boa parte do público brasileiro, reality show que não nomeio aqui por não fazer parte da lista de coisas que penso dignas de nomeação. Mas fato é que, se por um lado o programa em si não me parece digno de atenção, por outro o referido caso parece, não só digno de atenção, mas de ação, de posicionamento, pessoal e (principalmente) público.
Após uma medida puramente paliativa tomada pela direção do programa no início dessa semana, as discussões, sobretudo nas redes sociais, mudaram um pouco o foco: inicialmente giravam entre posições que, de um lado afirmavam o abuso, e de outro a consensualidade do ato, posteriormente aparecem com um terceiro fator: o participante foi expulso pelo abuso ou por ser negro?
Enquanto negra e cultuadora de religiosidade de matriz africana, as questões relacionadas à igualdade étnico-racial têm, desde minha adolescência, um espaço bastante significativo entre minhas reflexões e minhas batalhas. E cabe, mesmo nos casos isolados, voltar os olhos para as reflexões suscitadas quanto a âmbitos mais amplos envolvidos nos fatos. Acredito que a variável origem étnica no referido caso, coloca questões a serem analisadas.
Em um debate em rede social, por exemplo, um dos colegas com quem conversava mencionou um estudo acerca dos processos judiciais envolvendo violência sexual no Brasil. Segundo o referido estudo, poucos são os casos de violência sexual sentenciados no Brasil, e, quando o são, a maioria envolve violação por parte de homens negros, do mesmo modo que a atenção voltada às vítimas varia bastante segundo a origem racial. Então, sem dúvida temos a possível presença de um marcador sociológico vinculado à origem étnica em torno da questão, "o homem negro que estupra a mulher branca". Resta refletir se, no referido caso, esse marcador ocupa um espaço relevante. E qualquer opinião que eu pudesse emitir quanto a esse primeiro viés não poderia ser mais do que especulativa, visto que atrelada à subjetividade coletiva existem as diversas subjetividades individuais, e não temos como saber o que se passa na mente de cada brasileir@ que dedicou e tem dedicado sua atenção ao caso.
Mas, num primeiro momento, o que me deixa chocada, é que, de repente, sem mais nem menos, argumentos do tipo "o participante está sendo vítima de racismo" são mobilizados, inclusive por pessoas que não dão a mínima para a questão da igualdade racial (como podemos deduzir quanto ao próprio diretor do programa). E isso, digo sem meias palavras, para mim é hipócrita. Hipócrita à medida que se tenta fingir uma solidarização com uma causa simplesmente por que lhe é conveniente. No caso do diretor do programa, convém mudar o foco do crime ocorrido como uma forma de se eximir da responsabilidade por este.
Quando milhares (talvez milhões) de pessoas se mobilizaram nas redes sociais e fora delas (como no caso do coletivo Dente de leão, que organiza uma manifestação pacífica referente ao caso para a próxima sexta-feira) com relação ao caso, quando manifestaram sua revolta, não foi com relação à origem étnica do participante, mas sim com relação à sua atitude. Pouco importa se se trata de um homem negro ou branco, importa que se trata de um homem que abusou de uma mulher enquanto ela dormia. Alcoolizada? Sim. Com roupas provocantes? Também. Mas nada disso pode ser utilizado como uma forma de culpabilizá-la. Ela bebeu porque quis, se vestiu como quis, mas o ato não teve participação da moça (os vídeos retratam o participante fazendo movimentos claramente sexuais sob o edredom, enquanto a moça permanece desacordada), que sequer se lembrava ao certo do que lhe acontecera, e sequer teve o direito de saber o que lhe acontecera. E não me parece nada digno que se faça uso de um argumento de origem racial para tentar amenizar um ato de tamanha irresponsabilidade. Sobretudo porque coloca a nós negr@s como de vítimas do sistema social. Por óbvio, as condições sócio-históricas criadas pelo regime escravagista por vezes nos colocam em posições desfavoráveis, mas de forma alguma isso nos coloca como vítimas da história. Ocupamos os papéis que queremos ocupar, e o papel de vítima étnica para mim não cabe, para nós não cabe. Cada vez mais temos alcançado posições de destaque nas mais diversas esferas, o que comprova que podemos superar o(s) racismo(s) e conquistar condições de equivalência. Mas para superar o racismo, o primeiro passo deve ser dado dentro de nós mesmos. Devemos dar fim ao racismo que projetamos sobre nós mesmos, pararmos por nós mesmos com a visão de somos inferiores. Inclusive no que tange a nossas responsabilidades. Quando existe um abuso, independentemente das circunstâncias em que a vítima esteja, o responsável é SEMPRE o abusador. E a origem étnica não é argumento para amenizar a culpa.
E quem é o principal abusador na referida situação? Temos, obviamente, o participante que estuprou (segundo o artigo 217 do Código Penal) a colega, mas existe um crime e um criminoso muito maior por trás disso. Uma emissora que promove o consumo desmedido de álcool em uma festa, em um regime de confinamento em que há menos camas do que pessoas, cria condições para que tais situações, como outras pouco seguras, ocorram. Além do caso visível de omissão de socorro presente no caso. O abuso poderia ser facilmente evitado se a equipe responsável (ou não) fizesse as intervenções cabíveis a tempo. Onde estava essa equipe? O programa nada fez para evitar o abuso, e, pelo contrário, lucrou com sua exposição, visto a grande repercussão que a polêmica traz. Confesso que, pessoalmente, não espero absolutamente nada da emissora em termos de compromisso. Mas seria possível não passar pela cabeça de ninguém da emissora que, visto ser a maior em termos de audiência, o que significa ter milhões de pessoas que esperam algo de si, e visto também os participantes estarem de alguma forma sob sua guarda durante o programa, que deve haver compromisso? Responsabilidade? Com aqueles que estão sob seu "olhar vigilante 24 horas" (engraçado, o olhar vigilante não viu o que estava acontecendo) e com o público? Que muitas pessoas tomam diversas referências daquilo que vêem para suas vidas? E temos um veículo que poderia ser utilizado para propagar ações educativas, cidadania, saúde, tolerância, veiculando um crime em rede nacional e tentando tirar completamente de si a responsabilidade de um ato que nada fez para impedir. Essa é a TV brasileira. Uma salva de palmas.
Não vou dizer que esse país é uma m%@*a, que são todos uns alienados, que o povo é burro. Isso soa preconceituoso demais, como aspirante a antropóloga e como pessoa. Pergunto àqueles que dizem que o povo é burro: Vocês não fazem parte desse povo? E se o povo vive na ilusão, onde vocês acham que está a verdade? Eu tenho muito orgulho de ser brasileira, mesmo com todas as dificuldades que isso implica, faço parte desse país, desse povo, e acredito que o senso comum é uma forma de saber tão válida como qualquer outra (até porque o saber erudito também é um discurso como qualquer outro, simplesmente mais uma entre milhares de cosmologias). Mas sem dúvida nossa programação televisiva, salvo raras exceções, é de péssima qualidade, e enquanto continuarmos engolindo tais catástrofes midiáticas a seco, tudo continuará sendo visto da mesma forma: uma programação de merda , sem responsabilidade alguma, para um público ignorante, sem senso crítico algum. Não somos ignorantes. Até quando vestiremos essa camisa?
Quando milhares (talvez milhões) de pessoas se mobilizaram nas redes sociais e fora delas (como no caso do coletivo Dente de leão, que organiza uma manifestação pacífica referente ao caso para a próxima sexta-feira) com relação ao caso, quando manifestaram sua revolta, não foi com relação à origem étnica do participante, mas sim com relação à sua atitude. Pouco importa se se trata de um homem negro ou branco, importa que se trata de um homem que abusou de uma mulher enquanto ela dormia. Alcoolizada? Sim. Com roupas provocantes? Também. Mas nada disso pode ser utilizado como uma forma de culpabilizá-la. Ela bebeu porque quis, se vestiu como quis, mas o ato não teve participação da moça (os vídeos retratam o participante fazendo movimentos claramente sexuais sob o edredom, enquanto a moça permanece desacordada), que sequer se lembrava ao certo do que lhe acontecera, e sequer teve o direito de saber o que lhe acontecera. E não me parece nada digno que se faça uso de um argumento de origem racial para tentar amenizar um ato de tamanha irresponsabilidade. Sobretudo porque coloca a nós negr@s como de vítimas do sistema social. Por óbvio, as condições sócio-históricas criadas pelo regime escravagista por vezes nos colocam em posições desfavoráveis, mas de forma alguma isso nos coloca como vítimas da história. Ocupamos os papéis que queremos ocupar, e o papel de vítima étnica para mim não cabe, para nós não cabe. Cada vez mais temos alcançado posições de destaque nas mais diversas esferas, o que comprova que podemos superar o(s) racismo(s) e conquistar condições de equivalência. Mas para superar o racismo, o primeiro passo deve ser dado dentro de nós mesmos. Devemos dar fim ao racismo que projetamos sobre nós mesmos, pararmos por nós mesmos com a visão de somos inferiores. Inclusive no que tange a nossas responsabilidades. Quando existe um abuso, independentemente das circunstâncias em que a vítima esteja, o responsável é SEMPRE o abusador. E a origem étnica não é argumento para amenizar a culpa.E quem é o principal abusador na referida situação? Temos, obviamente, o participante que estuprou (segundo o artigo 217 do Código Penal) a colega, mas existe um crime e um criminoso muito maior por trás disso. Uma emissora que promove o consumo desmedido de álcool em uma festa, em um regime de confinamento em que há menos camas do que pessoas, cria condições para que tais situações, como outras pouco seguras, ocorram. Além do caso visível de omissão de socorro presente no caso. O abuso poderia ser facilmente evitado se a equipe responsável (ou não) fizesse as intervenções cabíveis a tempo. Onde estava essa equipe? O programa nada fez para evitar o abuso, e, pelo contrário, lucrou com sua exposição, visto a grande repercussão que a polêmica traz. Confesso que, pessoalmente, não espero absolutamente nada da emissora em termos de compromisso. Mas seria possível não passar pela cabeça de ninguém da emissora que, visto ser a maior em termos de audiência, o que significa ter milhões de pessoas que esperam algo de si, e visto também os participantes estarem de alguma forma sob sua guarda durante o programa, que deve haver compromisso? Responsabilidade? Com aqueles que estão sob seu "olhar vigilante 24 horas" (engraçado, o olhar vigilante não viu o que estava acontecendo) e com o público? Que muitas pessoas tomam diversas referências daquilo que vêem para suas vidas? E temos um veículo que poderia ser utilizado para propagar ações educativas, cidadania, saúde, tolerância, veiculando um crime em rede nacional e tentando tirar completamente de si a responsabilidade de um ato que nada fez para impedir. Essa é a TV brasileira. Uma salva de palmas.
Não vou dizer que esse país é uma m%@*a, que são todos uns alienados, que o povo é burro. Isso soa preconceituoso demais, como aspirante a antropóloga e como pessoa. Pergunto àqueles que dizem que o povo é burro: Vocês não fazem parte desse povo? E se o povo vive na ilusão, onde vocês acham que está a verdade? Eu tenho muito orgulho de ser brasileira, mesmo com todas as dificuldades que isso implica, faço parte desse país, desse povo, e acredito que o senso comum é uma forma de saber tão válida como qualquer outra (até porque o saber erudito também é um discurso como qualquer outro, simplesmente mais uma entre milhares de cosmologias). Mas sem dúvida nossa programação televisiva, salvo raras exceções, é de péssima qualidade, e enquanto continuarmos engolindo tais catástrofes midiáticas a seco, tudo continuará sendo visto da mesma forma: uma programação de merda , sem responsabilidade alguma, para um público ignorante, sem senso crítico algum. Não somos ignorantes. Até quando vestiremos essa camisa?
